Assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips – Wikipédia, a enciclopédia livre

Assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips
Cartaz reproduzido nas redes sociais incentivando as buscas
Data 5 de junho de 2022
Localização Amazonas, Brasil
Tipo Assassinato
Tema Desaparecimento
Mortes 2
Desaparecimentos Bruno Pereira
Dom Phillips
Suspeito(s) Amarildo da Costa de Oliveira
Oseney da Costa de Oliveira

Em 5 de junho de 2022, o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados durante uma viagem pelo Vale do Javari, segunda maior terra indígena do Brasil, no extremo-oeste do Amazonas.[1]

Bruno e Dom visitaram o Lago do Jaburu, uma localidade próxima da Base de Vigilância da Fundação Nacional do Índio (Funai) no rio Ituí, para entrevistar indígenas e ribeirinhos para um livro sobre a Amazônia.[2][3][4] Mais tarde, com a expedição praticamente concluída, eles se deslocaram para a comunidade São Rafael, onde fariam uma reunião com um pescador local.[2] O crime ocorreu no trajeto entre a comunidade e o município de Atalaia do Norte.[3] Após 10 dias de buscas, um dos suspeitos presos pela Polícia Federal (PF) confessou o envolvimento nos assassinatos e indicou a localização dos corpos.[5][6] Os restos mortais encontrados foram levados a Brasília,[7] periciados e confirmados como pertencentes a Bruno Pereira[8][9] e Dom Phillips.[10][11]

O crime gerou repercussão na imprensa internacional[12][13][14] e críticas ao enfraquecimento de instituições ambientais promovido pela gestão de Jair Bolsonaro.[15][16] O governo brasileiro reagiu tarde ao desaparecimento e não adotou medidas de buscas suficientes.[17][18][19][20]

Contexto

Bruno Pereira e Dom Phillips se encontraram em Atalaia do Norte.[2] Em 3 de junho de 2022, eles visitaram o Lago do Jaburu, uma localidade próxima da Base de Vigilância da Funai, para que o jornalista fizesse entrevistas com indígenas.[21][22][23] Dois dias depois, deslocaram-se para a comunidade São Rafael, onde fariam uma reunião com um pescador local apelidado de "Churrasco".[2] O objetivo do encontro era discutir trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na vigilância do Vale do Javari,[21][22][23] território bastante afetado por invasões e atividades criminosas.[24][25] No entanto, o morador não se encontrava na comunidade e os dois conversaram com a esposa dele.[21][22][23] Bruno e Dom foram assassinados enquanto viajavam para o município de Atalaia do Norte.[3][26]

Vítimas

Agentes da Polícia Federal carregam os caixões com os restos mortais de Bruno Pereira e Dom Phillips

Bruno Pereira

Ver artigo principal: Bruno Pereira

Bruno Pereira nasceu na cidade de Recife, em Pernambuco, no dia 15 de agosto de 1980.[27] Foi um indigenista e servidor de carreira da Funai,[28] tendo sido considerado um dos maiores especialistas em indígenas isolados ou de recente contato do país.[21][29] Em 2019, ele liderou a maior expedição para contato com índios isolados dos últimos 20 anos. Entretanto, após pressão de setores ruralistas ligados ao governo de Jair Bolsonaro, foi exonerado do cargo em outubro daquele ano pelo então secretário executivo de Sergio Moro no Ministério da Justiça, Luiz Pontel.[28][30][31] De acordo com entidades indígenas, Bruno era constantemente ameaçado por garimpeiros, madeireiros e pescadores.[28][30][32]

Dom Phillips

Ver artigo principal: Dom Phillips

Dom Phillips nasceu no condado de Merseyside[33] em 23 de julho de 1964.[34] Foi um jornalista que colaborou com os jornais Financial Times, The Guardian, The New York Times e The Washington Post.[33] Ele se mudou para o Brasil em 2007 e morava em Salvador.[33][35] Era casado com a brasileira Alessandra Sampaio e estava escrevendo um livro sobre a floresta amazônica e seu potencial sustentável.[33]

Buscas e investigação

Reportagem sobre as buscas pelos desaparecidos

Em 5 de junho, a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja) organizou duas equipes de buscas que saíram de Atalaia do Norte e Tabatinga.[21] Porém, sem sucesso, a entidade divulgou uma nota em suas redes sociais reportando o desaparecimento e pedindo esforços nas buscas.[36] Por sua vez, a Polícia Federal anunciou que estava apurando o acontecimento, mas não deu mais detalhes.[21]

Dois dias depois, a Policia Militar fez uma vistoria na residência de Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como "Pelado", após receber uma denúncia anônima de uma suposta participação dele no desaparecimento. Ele foi preso por posse de droga e de munição de uso restrito. Na ocasião, a polícia também apreendeu a lancha do suspeito, onde foram encontrados vestígios de sangue, enviados para análises.[37][38] Em 12 de junho, a equipe dos bombeiros em Atalaia do Norte encontrou uma mochila, um notebook e um par de sandálias próximo à casa de Amarildo.[39] No dia seguinte, a família de Dom Phillips foi avisada erroneamente pela Embaixada do Brasil no Reino Unido de que os corpos teriam sido encontrados.[40][41]

Em 15 de junho, Amarildo confessou a participação no crime[42][43][44] e indicou às autoridades onde havia enterrado os corpos, assim como o local em que afundou a embarcação.[45] Os restos mortais encontrados foram levados a Brasília,[7] periciados e confirmados como pertencentes a Bruno Pereira[8][9] e Dom Phillips.[10][11] O irmão de Amarildo, Oseney da Costa de Oliveira, e Jeferson da Silva Lima também foram presos.[46][47] Segundo o laudo da PF, as vítimas foram baleadas com munição de caça.[48][49] Dom faleceu por traumatismo na região abdominal e torácica, enquanto Bruno foi baleado na cabeça e no tronco.[48][49]

Repercussão

Políticas e institucionais

O crime gerou críticas negativas para o governo federal, uma vez que não adotou medidas de buscas suficientes[17][18][19][20] e enfraqueceu instituições destinadas a proteger o meio ambiente.[50][51] O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, minimizou o desaparecimento[20][52][53] e culpou as vítimas.[54] Para ele, ambos eram "imprudentes"[55][56] e suas profissões uma "aventura".[20][57][58] Porém, integrantes do governo avaliaram a condução do mesmo como negativa, contribuindo para desgastar a imagem do próprio presidente.[59][60]

No âmbito jurídico, Jaiza Fraxe, juíza da 1.ª Vara Federal Cível da Justiça Federal do Amazonas, apontou omissão, por parte da União, do dever de fiscalizar as terras indígenas e proteger os povos indígenas isolados e de recente contato. De acordo com a magistrada, a não identificação do paradeiro de Bruno Araújo Pereira e Dom Philips "representa a um só tempo a perda de duas vidas e a perda da chance probatória".[18][19][20] Por sua vez, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso deu cinco dias para que o governo federal adotasse "todas as providências necessárias".[61]

Na política, deputados e senadores lamentaram as mortes de Bruno e Dom e também se solidarizaram com os familiares.[62][63] O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, considerou a presença de um Estado paralelo na Amazônia como uma "ofensa gravíssima" às instituições.[64] Para Pacheco, "além do sentimento humano, da vida que se perde em atentado dessa natureza, há uma ofensa ao Estado" e o Senado não pode tolerar essas "atrocidades".[65]

Entidades ambientais e de direitos humanos também se manifestaram. O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas afirmou estar "profundamente entristecido" com os assassinatos, ressaltou que os ataques e ameaças a ativistas e indígenas são persistentes no Brasil e instou o governo a protegê-los "de todas as formas de violência e discriminação.[66] A Human Rights Watch também pediu medidas "imediatas e enérgicas" para combater "a ilegalidade e as redes criminosas na Amazônia".[67] Já a Greenpeace salientou que os assassinatos são resultados das "ações e omissões de um governo empenhado na economia da destruição".[67]

Na imprensa e entre analistas

A mídia brasileira começou a noticiar o desaparecimento de Bruno e Dom assim que foi reportado pela Univaja.[36][68][69] Na imprensa estrangeira, o crime recebeu cobertura nas páginas da Al Jazeera,[70] Associated Press,[71] BBC,[72] Bild,[73] CNN en Español,[74] Daily Mail,[75] El País,[76] La Nación,[77] La Repubblica,[78] Le Monde,[79] New York Daily News,[80] Público,[81] The New York Times,[82] The Guardian[83] e The Washington Post.[84]

Discorrendo sobre o crime, o jornalista Jânio de Freitas considerou as mortes de Bruno e Dom um "êxito" da política de destruição de Bolsonaro. Ele ainda concluiu: "a Amazônia está sob uma construção extensa e minuciosa. É uma teia de criminalidades diferentes que tomou o domínio de grandes áreas e é subsidiária de outra teia. Esta penetra nas instituições do Estado e de governo, em especial no sistema de segurança."[85]

Este raciocínio foi seguido por Jorge Pontes, ex-delegado da Polícia Federal, que disse: "Jair Bolsonaro operou, desde que assumiu, em 2019, um verdadeiro desmonte da capacidade de fiscalizar, reprimir e multar transgressores ambientais, promovendo assim o recrudescimento de uma situação que já era ruim, por intermédio do empoderamento de madeireiros, grileiros e garimpeiros que atuam naquela região."[86] Por sua vez, a revista Veja publicou um artigo descrevendo como "o governo facilita ações ilegais na Amazônia".[87]

Já as publicações estrangeiras criticaram a demora do governo brasileiro nas buscas.[88] O The Guardian disse que o caso sublinha o aumento do perigo para quem "ousa defender o meio ambiente no Brasil ou as comunidades indígenas, que enfrentam um assalto histórico sob a gestão de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro".[89] O The New York Times classificou o crime como um "capítulo sombrio" na história da Amazônia[82] e o The Washington Post frisou que o presidente brasileiro é defensor de garimpeiros ilegais e desmatadores.[84]

Ver também

Referências

  1. Fontes incluem, mas não se limitam a
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